1 de agosto de 2007

Entre pratos de leite creme e cheiro a canela...

Hoje é um daqueles dias em que me sinto nostálgica, apetece-me viajar pela minha infância. Às vezes sinto necessidade de trazer as memórias à tona, como se fosse um exercício de memorizar. Não quero esquecer nada, sobretudo aqueles doces e bons momentos...

E é de bons momentos que me lembro, quando recordo o meu querido avô materno (o paterno mal conheci). É mesmo isto, sorrio, mas ao mesmo tempo com vontade de chorar, de emoção, de saudade... Grandes conversas à lareira, a discussão de ideais, de valores, de moral... o encontro de gerações, entre pratos de leite creme e cheiro a canela... Mas sempre com muito respeito, não viria logo a mamã dizer "não te esqueças que estás a falar com o teu avô"... Tão bom!

Dormia lá muitas vezes, porque gostava muito de lá estar. Aquele casarão era uma aventura, cheia de recantos e mistérios. Havia frascos com coisas inúteis por todo lado, por capricho da vóvó. Eu dormia num divâ, na sala de jantar, muito pequeno, que chiava a cada movimento, e então ficava paralisada, a ouvir o silêncio arrepiante da noite. Só uma coisa furava aquela taciturnidade - o velhote a roer bolachas a meio da noite. Uma úlcera arrancara-lhe metade do estômago trinta anos antes, o que o obrigava a comer muitas vezes ao dia... e à noite. E eu, filada, tinha vontade de fazer chichi, porque sabia que havia sempre uma bolacha para mim...

Havia uma carpintaria, improvisada. Eu, desde sempre muito versátil, aprendi umas coisitas com ele e lá ia construindo camas e armários para as bonecas. "Não te quero aqui quando eu não estou", dizia ele, mas eu, gozando de uma das minhas maiores virtudes, contrariei... Custou-me um valente corte num dedo, que escondi como pude durante algum tempo, até me descobrirem uma bela infecção... Valeu-me um sermão.

Também passava bons momentos na cozinha, à barriga do fogão a lenha, a aprender os truques da velhota. Aprendi tão bem, que modéstia à parte, sou a herdeira legítima da mãozinha de doceira da minha avó, isto, segundo dizia o meu querido avô. "Abençoada sejas, minha filha". O segredo está no sal...

E a voz... Ninguém cantava como o meu avô. No orfeão, na missa do Galo, no meio de tanta gente, conseguia-se distinguir a voz de tenor... Que orgulho! Fazia arrepiar... Mas daqui não herdei nada...

A boina, o cabelo com caracóis (como o meu irmão), o corpo pequeno, a pose de senhor de filmes de anos vinte, o charme, a doçura, o carinho, a paciência, a teimosia, o respeito, a habilidade, o engenho, a sabedoria...

Que saudades avô!


1 comentário:

andromeda disse...

Vim a este "ponto" por acaso, mas vou voltar e, agora, sem acaso...
Tambem tive um avô assim e que saudades! Felizes esses momentos de infância para quem teve o privilégio de ter avós como os nossos.
Parabens pelo Blog
Um abraço